quinta-feira, 27 de abril de 2017

Sim, é só o pão e os bolos



Estive tão ocupada com a minha arte que até me esqueci de contar que naquele Sábado, antes do Domingo de Páscoa, fui comprar pão, que no Domingo nunca há – ou melhor, há, mas é daquele plástico, do supermercado – e então fui à padaria, e estavam duas pessoas à espera de ser atendidas e eu percebi que estavam à espera que o pão chegasse, e quando a menina me perguntou o que queria, eu disse-lhe que queria um pão médio, e ela, ah tem de esperar dois minutos que o meu colega está a descarregar, e eu, então está bem, e fiquei ali a olhar para os bolos, que eu gosto muito de bolos, talvez leve estas roscas, que parecem ser bem boas, e estes bolos que não sei o nome, mas que têm doce de ovos a cobrir e depois uma camada de coco ralado com uma risca de canela, e enquanto estava nisto o colega entrou com o carrinho cheio de cestos de pão empilhados uns em cima dos outros, passou o balcão e a menina que estava a atender atarefou-se logo muito com aquilo, pegou nos cestos e começou a despejar os pães para dentro das tulhas, os pequenos na tulha dos pequenos, os médios na dos médios e os grandes na dos grandes, enquanto o colega, lá fora, retirava mais um grande cesto para o carrinho, e então, enquanto a menina arrumava os pães, o colega entrou com o novo carregamento, e eu vi que eram folares, que cheirava mesmo bem a erva-doce, e então pensei cá para mim, olha que boa ideia, também vou levar um folar – já está visto que estava cheia de fome – mas no momento em que tive este pensamento, o colega bateu com o carrinho numa cadeira, o cesto virou-se e os folares rolaram pelo chão para todos os lados, era um mar de folares que se reflectiam por ali fora, nos ladrilhos, e eu a olhar para o cesto, a ver se se tinha salvado algum folar, e sim, ficaram dentro do cesto uns dois ou três, não dava para perceber bem, os outros estavam todos por ali espalhados, e então, naquela fracção de segundo, enquanto o colega, esbaforido, soltou um palavrão extremamente audível, daqueles mesmo, mesmo cabeludos eu fiz as contas aos folares ilesos e às pessoas que estavam à minha frente, se cada uma levasse um folar ainda havia de chegar para mim, e enquanto estava nestas matemáticas, a menina dentro do balcão pergunta “quem está a seguir” e eu olho em volta, à procura das duas pessoas que estavam à minha frente, mas nisto vem uma chica-esperta lá de trás que, aproveitando a estupefacção geral com aquele jardim de folares, furou por ali fora, espetou o cotovelo no balcão e disse: sou eu!, ora eu, que estava à procura das duas pessoas que estavam à minha frente, percebi que estavam ambas lá fora, a falar ao telefone, consegui vê-las bem porque as outras pessoas, as que chegaram depois de mim, estavam todas acocoradas a apanhar os folares do chão, e então tive um repente, que havia de ter direito ao meu próprio folar incólume, e ao invés de ficar com cara de palerma, que é o que me acontece sempre com os chico-espertos, disse à menina que estava a atender, muito determinada, não, sou eu que estou à frente!, e a chica-esperta disse com cara enfadada de chica-esperta “já não percebo nada disto”, e a menina pergunta: então o que vai ser? Um pão médio, um saquinho de roscas, estes dois bolos aqui, e quando estava para acrescentar o folar, o meu folar, o folar sobrevivente que havia de ser meu,  vejo as pessoas agachadas a dar uns soprinhos aos folares derrubados que apanharam do chão e a dizer “schhhh, ninguém viu…” e a guardarem-nos novamente no cesto.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Há quatro ou cinco anos atrás tivemos esta linda conversa...

- Nem pensar.
- Então quando?
- Não sei, logo se vê...
- Mãe, tens de dizer quando.

(a tentar encerrar o assunto)

- Sei lá, quando fizeres dez anos...


(ontem fui relembrada pela minha filha que faltam quarenta e cinco dias para poder furar as orelhas)


Entretanto, em Tanganica...


assiste-se ao fulgurante e robusto despontar de uma nova espécie.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Um mix de Kafka com as intermitências da morte

Era uma história de uma carta remetida a uma entidade patronal (doravante designada como a entidade), aprisionando para sempre um pobre cidadão no obscuro mundo das penhoras de vencimentos, um mundo lúgubre e sombrio, sem lei nem regras e gerido por folhas de excel e programas informáticos  que agrilhoam os cidadãos ad eternum. Ora a entidade, ao receber a carta do Solicitador de Execução, pegou na sua faquinha de papel em prata, cravejada de diamantes e pedras preciosas e, enquanto tamborilava os dedos sobre o envelope e esboçava o seu sorriso mais peçonhento, pensou: quem será o feliz contemplado desta vez? Rasgou então o sobrescrito com um nervosismo perverso, na ânsia de verificar o nome, o valor da penhora e os juros com que um dos seus trabalhadores se veria a braços e verificou que a situação era melhor ainda do que supunha, era um jackpot!: uma dívida de quarenta e quatro mil euros e juros moratórios no valor de cento e cinquenta e três mil, oitocentos e noventa e cinco euros, a entidade vai repetir: cento e cinquenta e três mil, oitocentos e noventa e cinco euros (e correndo o risco de se enganar, que as entidades patronais, já se sabe, não são muito boas em números, vai digitar aqui os algarismos: 153895,00€). 
Ora a entidade, ruim e impiedosa, pegou no telefone e ligou para o Solicitador de Execução e, fingindo-se apoquentada com tal situação, perguntou como era aquilo possível. Lá do outro lado, do inacessível e sombrio mundo das penhoras, disseram-lhe que a entidade não tinha de fazer perguntas, que só tinha de debitar no vencimento, mas a entidade tinha de representar o seu papel de entidade preocupada até ao fim e disse: mas como é que eu vou dar isto a um funcionário? Como é que lhe explico uma coisa destas? Desculpe mas tem de me esclarecer, tem de me dizer como é que uma dívida de quarenta e quatro mil euros dá origem a juros de cento e cinquenta e três mil, oitocentos e noventa e cinco euros. E foi então que lá do outro lado, das trevas do submundo das penhoras, me responderam: Isso é porque a senhora não leu bem o papel! Não li bem o papel? Mas está aqui, os valores são estes! Preto no branco! Sim, disse com maus modos, mas não leu a data prevista para o fim do pagamento da penhora! E então a entidade foi ler, e lá estava, bem claro e sem margem para dúvidas: o trabalhador saldará a sua dívida exactamente no dia trinta de Abril do ano da graça de dois mil trezentos e vinte e três.. 30-04-2323.





quarta-feira, 19 de abril de 2017

E então fui a correr à obra - que já passaram quinze dias desde a última vez que lá fui - à espera de major changes

e...  nada. 


Então resolvi ter uma conversa com o Senhor Pedro, o encarregado - que o Senhor José Carlos há muito que foi substituído (por decisão do empreiteiro) -, para lhe dizer que eles tinham de ter mais frentes activas, que se uma equipa estava a fechar tectos, outra devia estar na fachada, e outra nas casas de banho, que assim nunca mais víamos o fim à obra, e então o Senhor Pedro, uma simpatia de pessoa, sempre com um sorriso, levou-me a fazer um tour explicativo, para eu perceber as dificuldades, que aquilo não era desculpa, evidentemente, mas, por exemplo, quando punham uma parede, (apontando para a parede) está a ver, depois tinham de esperar que viesse o electricista passar os fios (pegando no molho de fios), e depois o homem das calhas, está a perceber?, estou Senhor Pedro, mas... e para fazer a casa de banho, primeiro tem de vir a base do duche (já a qui está, está a ver?), para tirar as medidas certinhas para fazer a caleira e só depois é que podiam mandar vir o resto das pedras... mas, Senhor Pedro, mandem vir as bases de duche todas de uma vez, para porem as casas de banho todas a andar, ah (rindo e levando as mãos à cabeça), isso é que era bom, que a pedra para cada uma das casas de banho tem de vir toda do mesmo bloco, que se eles se põem a tirar tudo ao mesmo tempo depois era um Deus me acuda, mas, Senhor Pedro, e a fachada? Ah, isso vamos começar a projectar (o estuque) esta semana, mas depois temos de parar para virem fazer o soco (é assim que se escreve?) de pedra... mas, Senhor Pedro, e as janelas? Ah, isso já estamos a pôr o aros, mas e as janelas, Senhor Pedro, quando é que estão cá?, ah, primeiro temos de estucar aquela parede ali, está a ver (diz-me enquanto se debruça sobre o abismo, oh Senhor Pedro, tenha cuidado, chegue-se para trás que isso faz-me muita impressão! deixe estar, não faz mal, estou habituado, e então a pessoa mantém o seu ar sério e entendido apesar de estar praticamente agoniada, tal é a altura), só depois é que podemos pôr este aro, está a ver?, para depois estucar este bocado de parede aqui, está a perceber? Sim Senhor Pedro, já percebi que as coisas estão todas encadeadas, mas então devia ter mais cadeias a funcionar ao mesmo tempo! E então o Senhor Pedro olha para mim com olhos tristes de quem desiste de explicar o óbvio e remata a nossa conversa dizendo: eu não quero que fique a pensar que isto são desculpas, que eu percebo muito bem a sua imaginação.


terça-feira, 11 de abril de 2017

Lua cor de laranja


São quatro e vinte e dois e ainda aqui estou às voltas

Não percebo porquê, mas há noites em que as almofadas se amotinam contra mim, devem combinar lá entre elas umas acções revoltosas com o objetivo de serem absolutamente desconfortáveis e manterem-me assim, acordada. Nestas noites não há nada a fazer, é esperar que se cansem desta parvoíce. 

sábado, 8 de abril de 2017

São as famosas caixas de comentários Pshico!

Aquelas caixas de comentários que começam por parecer um duche inofensivo, uma coisa mesmo tranquila, só para descontrair, e depois a pessoa adormece, que tem muito soninho, e quando acorda, abre os olhos  estremunhada e repara, atónita, que aquela caixa de comentários romântica - em verde pistachio e cor de rosa velho - se transformou num verdadeiro thriller!


quinta-feira, 6 de abril de 2017

terça-feira, 4 de abril de 2017

Opáaaaaa, agora a sério, que até estou nervosa...

Alguém me explica aquele conceito dos grupos de pessoas desconhecidas que se juntam numa casa secreta para experiênciarem a situação de comerem brunches clandestinos em conjunto?

(uns brunches aos quais é extremamente difícil aceder, que só se consegue reserva via redes sociais e só se estivermos com muita atenção e formos muito rápidos no uso das tecnologias e depois, se tivermos sorte, enviam a morada sigilosa por sms mas apenas e só na véspera do misterioso acontecimento, que o protocolo, rigorosíssimo, está ao nível de uma CIA, assim uma situação de tal forma profunda e obscura, que transforma os ovos mexidos numa coisa verdadeiramente enigmática e brrrrr.... intrigante!)


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Vocês, que sabem de coisas, digam-me o que se passa com a minhaFigueira Lira!

Porque tem ela estas duas manchas alastradoras, que começaram num ponto minúsculo e não param de crescer, são só estas duas, as outras folhas estão impecáveis, e a irmã gémea, que está do outro lado da sala, com a mesma luz, frequência e quantidade de rega, está impávida e serena, toda contente e verdejante. Por isso, vocês, magos das plantas de interiores, curandeiros das estufas, encantadores de pequenos arbustos, digam-me por favor, porque razão está ela com toda esta má onda para mim?! Ajudem a Palmier a salvar o seu vegetal!

sexta-feira, 31 de março de 2017

Ontem vi o amor na mesa ao lado da minha

Estava lá, na cara daquele senhor de barbas brancas e rabo-de-cavalo, um senhor já muito, muito crescido, que trazia nos olhos o amor, um amor tão grande que tinha à mulher que estava sentada à sua frente que os envolvia transbordava por ali fora, como uma manta quentinha num dia de Inverno, e depois ele estendeu os braços por cima do tampo que os separava e, com as duas mãos, uma de cada lado da cara, fez-lhe a festa mais terna e comovente que já vi, e eu estive o almoço todo a tentar ouvir o que eles se diziam mas a pessoa que estava comigo encontrava-se de tal forma embrenhada em assuntos que nem sequer reparou na magnitude do que se passava mesmo ali, ao nosso lado.