segunda-feira, 23 de março de 2015

O Estranho caso do Engenheiro Acácio

O Engenheiro Acácio acorda todas as manhãs entusiasmadíssimo; entusiasmadíssmo é como quem diz, que o Engenheiro Acácio tem de manter a fleuma e, como tal, não é homem de se entusiasmar por aí além. Voltemos então ao início.
O engenheiro Acácio acorda todas as manhãs entusiasmado q.b., no fundo sabe que tem uma missão a cumprir e isso é o suficiente para o alegrar, uma vez que o Engenheiro Acácio é, sobretudo, um homem de missões.
Depositado nas costas da cadeira do seu quarto está, muito direitinho e preparado de véspera, o seu fatinho escuro às riscas, a sua camisa branca, a sua gravata verde garrafa e, no chão, numa linha paralela perfeita, os seus sapatinhos de sola, imediatamente ao lado da sua mochila. Em cima da mesa, enfileirados, os seus cartões verdes, amarelos e vermelhos. O Engenheiro Acácio acorda bem cedinho, porque isto de ter uma missão é coisa importante e, quem tem uma missão, tem de a cumprir em condições. Assim sendo, veste-se com aprumo, calça-se, atando os atacadores com dois lacinhos redondos e perfeitos, amarra firmemente à cabeça uma fita encarnada, à Rambo, a fita que revela ao mundo a perigosidade da sua incumbência, dedica largos minutos a polir os seus cartões coloridos, os conhecidos cartões da Moral, os cartões que lhe foram atribuídos numa linda cerimónia pela Santa Inquisição, guarda-os com todos os cuidados num porta-documentos de pele de borrego que é cuidadosamente guardado na mochila que, por sua vez, é profissionalmente colocada às costas, e, nestes preparos absolutamente assustadores, parte no seu passo aprumado e oficial para a floresta, para fazer a sua ronda Moralizadora.
E o Engenheiro Acácio lá vai, perscrutador, por entre galhos pavorosos, que insistem permanentemente em despentear-lhe as lustrosas e cuidadas melenas, folhas que insistem em cair-lhe nos ombros e que ele sacode incessantemente, de olhos bem abertos, a cumprir escrupulosamente o seu mister: caçar as terríveis, perigosas e inomináveis prevaricadoras. O Engenheiro Acácio é, no entanto, extremamente cuidadoso, que a floresta é local ermo, arriscado e traiçoeiro, e o Engenheiro, homem do mundo como gosta de se considerar, sabe muitíssimo bem que não pode pôr o pé em ramo verde, pelo que todos os seus gestos são estudados para que possa saltar de nenúfar em nenúfar sem nunca tropeçar e estatelar-se na lama. Mas se o Engenheiro Acácio é geralmente um homem cuidadoso e cortês com todos aqueles com quem se cruza na floresta, "bom dia minha Senhora, vai muito compostinha nesse coche alemão, sim senhor! Passou no exame! Aqui tem um cartão verde", "como vai o Senhor Doutor, ai essas polainas... deviam estar mais reluzentes, aqui tem um cartão amarelo", com as prevaricadoras, aquelas que saem da linha, uma linha que o Engenheiro Acácio definiu com esmero ao longo de anos e anos, consegue ser absolutamente implacável, sendo, aliás, muito pior que as próprias. Não que seja sanguinário, que o Engenheiro, como engenheiro que é, faz questão em ser sempre muito gentil, mas, de cada vez que apanha uma dessas prevaricadoras, tira do bolso o seu lenço de seda da Índia, passa-o pela testa, devolvendo-o de seguida ao bolso da sua sobrecasaca e diz, corajoso e com voz segura de quem fala em nome de um povo e da autoridade instituída, cartão vermelho na mão direita, a esquerda pousada no ombro da prevaricadora, paternalmente, "Então, então, minha Senhora, por quem é! A Senhora é muito instruída para ter ideias tão... tão anticivilizadoras! Prudência! Prudência! Os regulamentos são muito explícitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos! O nosso público não é afecto a cenas de sangue" e, com voz persuasiva, acrescenta "dê mais alegria ao blog, o leitor sai mais aliviado. Deixe sair o leitor mais aliviado!".

E ao fim do dia, quando o vêem regressar ao seu quartinho, missão cumprida, ouvem-se suspiros pela floresta, "que grande homem", dizem umas, "que justiceiro", dizem outras, e o Engenheiro Acácio, glacial e polido, diz-lhes "minhas senhoras, então? Mas, no fundo, é disso que está à espera, que o Engenheiro Acácio está aqui para ser visto, desejado e, já agora, para sair bem no daguerreótipo. Sim, sair bem no daguerreótipo é fundamental.



sábado, 21 de março de 2015

Sábado à tarde

Uma amiga da minha filha veio cá a casa, estiveram no veste e despe, a brincar às passagens de modelos (o estado daquele quarto, Mamma Mia!). Dos adereços faziam parte brincos autocolantes (nenhuma tem as orelhas furadas). O susto da mãe a olhar para as orelhas da filha quando a veio buscar! 

- Ah, é verdade, furei-lhe as orelhas! E também lhe tatuei uma caveira nas costas!



A congeminar


quinta-feira, 19 de março de 2015

Tenho uma tristeza no coração

Acho que nunca poderei ser banqueira. Gesticulo demasiado. Parece-me bem que, para se ser banqueira, é necessário primeiro estudar para esfinge.

E também tenho uma excelente memória :( o que é claramente um terrível handicap.



Queria tanto estar em casa a ver o nosso Bankster...

Snif.



E quando as reuniões nunca mais acabam, o que fazes, Palmier?

Aquelas que se prolongam indefinidamente? Aquelas em que já está tudo falado e esclarecido e até parece que estão mesmo, mesmo, a terminar, aquelas em que a pessoa até já está a pegar nas suas coisinhas porque não há mais nada a dizer e, de repente, nesse exacto momento, alguém faz uma pergunta sem nexo reacendendo a reunião, e a reunião fica outra vez crepitante e cheia de labaredas bem amarelinhas? 


Eh pah... levanto-me e digo "Olhe, já estou farta! Vamos ficar por aqui, sim?"



quarta-feira, 18 de março de 2015

A Assembleia-Geral

O afã começa logo da parte da manhã, com o cuidado que o Senhor Pereira dispensa à arrumação da sala de reuniões, organização dos vários exemplares do Relatório e Contas finamente encadernados e perfeitamente alinhados em cima da mesa, garrafinhas de água acompanhadas dos respectivos copos e, para rematar, canetas e blocos de notas que ficam invariavelmente por utilizar e que passam de ano para ano como relíquias preciosas. 
Depois, aí pelas duas e meia da tarde, começam a chegar os convivas, para a Assembleia que se encontra marcada para uma hora mais tarde. No fundo trata-se de um dia especial, que não permite atrasos ou contratempos de qualquer espécie, pelo que mais vale prevenir e chegar um "bocadinho" mais cedo. 
A primeira a apresentar-se é invariavelmente a Senhora Dona Teresina, viúva de um dos sócios, leva o seu papel muito a sério e, com os seus oitenta e seis anos apresenta-se munida da sua pastinha preta de aspecto profissional, que contém apenas uma caneta, a única caneta com que consegue assinar, aquela com que consegue ludibriar o Parkinson. Pergunta sempre pela família e pelos meninos e senta-se numa cadeira, a olhar em frente, à espera. A Senhora Dona Teresina sofre muito dos nervos por causa dos senhores dos bancos, que lhe telefonam amiúde com propostas indecorosas de depósitos e aplicações que a Senhora Dona Teresina não compreende. Ultimamente tem sido fustigada por telefonemas do Novo Banco, ou “os verdes”, como lhes chama, que lhe explicam que os outros, os da Caixa Geral, têm lá muito dinheirinho e que a Senhora Dona Teresina havia de ser boazinha e havia de passar uma parte do dinheiro que tem nos "outros" aqui para nós, para ficarmos todos mais equilibrados, e a pessoa ainda lhe diz que não vale a pena ficar naquele estado de nervos, que a Senhora Dona Teresina diga lá aos senhores do Novo Banco que se lhe voltarem a falar nesse assunto tira de lá o dinheiro todo e que o deposita no Totta, mas a Senhora Dona Teresina sente medo dos senhores do banco, que é uma pessoa sozinha, e hoje em dia nunca se sabe, “ainda me fazem mal!” De qualquer forma, não adianta dizer-lhe grande coisa, que a Senhora Dona Teresina não ouve nada porque se recusa a usar o aparelho auditivo. O segundo a chegar é o Senhor Manuel, sobe a escada de bengala mas abandona-a à porta, para parecer mais jovem que os seus oitenta e nove anos. O senhor Manuel não perde tempo e fala de todos os médicos a que tem ido, e têm sido muitos, tínhamos ali conversa para vários dias, doenças, medicamentos e mezinhas, consultas, cirurgias, hospitais, anestesias e analgésicos, tratamentos e fisioterapias, o que se quiser, como na feira, tudo contado com incrível detalhe, detalhes que na verdade ninguém quer saber mas que todos ouvem acenando com fingida atenção. De seguida chegam os restantes sócios, o ROC, o TOC, e ali ficam a conversar sobre o estado das coisas, o Governo e os impostos, que já se sabe, isto está tudo muito mau e a tendência é para piorar. Por fim, às quinze e trinta em ponto, chega finalmente o Presidente da Assembleia-Geral, cargo que é ocupado pela mesma pessoa vai para cima de trinta anos. O Presidente, advogado outrora famoso, foi refinando com a idade, e agora, aos oitenta e oito anos e assumiu-se claramente como um machista arrogante e abjecto que nutre um profundo desprezo por todas as mulheres que se atrevam a ser mais do que umas simples e extremosas donas de casa, uma espécie de militante do Estado Islâmico, versão 1940, com quem, naturalmente, mantenho um sanguinário diferendo vai para cima de dez anos. Pois então o nosso Presidente entra, cumprimenta-me em primeiro lugar, e fá-lo como habitualmente, "gosto em vê-la Xôtora, ah, mas está com muito melhor aspecto!” E depois de me avaliar de cima a baixo, larga a primeira granada, "engordou aí um quilo e meio, não?" fugindo de imediato, antes que lhe possa sequer responder, apressando-se a cumprimentar todos os presentes como se nada fosse. Feitos todos os cumprimentos, sentamo-nos finalmente à mesa e, num ambiente vagamente religioso, dá-se finalmente início à Assembleia-Geral. Ao mesmo tempo que se lê o ponto um da Ordem de Trabalhos, circula o livro de presenças que vai sendo assinado à vez. É portanto enquanto se analisa o exercício de 2014, que a Senhora Dona Teresina abre a sua pasta preta de executiva, de lá retira a sua caneta mágica, respira fundo como que para ganhar coragem para aquela pesada responsabilidade anual, profere um audível “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, benze-se e então sim, guiada pela força de Deus, arremete finalmente contra o livro de presenças, para aí deixar a sua assinatura, a prova do cumprimento da sua obrigação. Nisto, e enquanto se analisam os números, o Presidente pára tudo, volta a olhar para mim - que tinha passado a manhã de um lado para o outro, à chuva- "a Xôtora tem um penteado novo?" "Não Xôtor, não tenho", "ah, estou a ver... foi então ao cabeleireiro?" "Fui sim, Xôtor, fui fazer o meu Penteado-Especial-Assembleia", e com esta terrível dúvida esclarecida passamos então à votação das contas de 2014, através do método de sentados e levantados, que reforça a ideia sacro-santa do evento - quem é a favor deixa-se ficar sentado, quem é contra deve levantar-se -, método terrível, que toda a vida impediu os sócios minoritários, já de si inibidos pela situação, de votar contra fosse o que fosse, obrigando, aliás, a que todos fiquem absolutamente imóveis, não vá dar-se o caso de um qualquer gesto ser tomado como um voto contra. Foi enquanto se analisava o ponto seguinte da ordem de trabalhos que se abriram umas garrafinhas de água para descontrair, que isto de votar contas por unanimidade é coisa cansativa, uma água para aqui, outra para ali, e a Senhora Dona Teresina, quer uma aguinha? E a Senhora Dona Teresina estica o braço, olha fixamente para o relógio (?) e, depois de uma pausa de vários segundos para estudar o mostrador, responde convicta: "ainda não, obrigada!". Por fim, e uma vez analisados e votados todos os pontos da ordem de trabalhos, são então feitos os costumeiros votos de louvor, louvam-me a mim, louvam os outros dois gerentes, homens de barba rija, louvam-nos muito com diversos hossanas e, depois de termos sido profusa e devidamente louvados, dá-se por encerrada a Assembleia, e o Xôtor, já esquecido da sua bomba inicial volta a dizer-me "Muito gosto em vê-la! Está com muito bom parecer! À última vez que a vi tinha uns bons quilos a menos. Talvez cinco ou seis, não? Foi Xôtor, engordei quatro ou cinco agora mesmo, durante a Assembleia...


Daqui a uns dias havemos de receber o livro de actas, porque a nossa acta ainda é passada ao livro, com letra desenhada, que o Senhor Presidente não acredita nessa coisa da informática, que não é de fiar e, miraculosamente, vamos voltar a constatar que lá constarão os louvores dirigidos aos homens de barba rija, mas que o senhor Presidente vai voltar a fazer desaparecer os meus próprios louvores, e, caramba, nunca lhe hei-de perdoar isto do furto dos meus louvores! É que uma mulher ressente-se com estas coisas! Levem-me tudo, mas deixem-me os meus louvores! 



segunda-feira, 16 de março de 2015

Muito Varoufakis para umas coisas, depois, para outras, é o que se vê!

É que a pessoa tem o texto para enviar para a senhora do hotel pronto há que tempos, a ver se contorna a questão dos cinco quilos de cão, e o meu consorte, vá-se lá saber por que razão, anda a refundir o endereço de e-mail! Ora vejam lá se não está tão bem:

Dear Sirs,

Regarding the dog issue, we have to tell you that our dog is one of the most prominent Portuguese bloggers (please google "Pequena Cutxi"), with thousands of followers all over the world, and she works (as you can see in the attached photos) with some of the most well-known brands in the world, like, for instance, Hermès. Unfortunately she is a little bit overweight, but she has already engaged herself in a strict goji berries diet, and she is working hard to be really fit in the summer and looking forward to wear some gorgeous bikinis under the hot Spanish sun. For that matter, we have already hired her personal trainer.

So, we were wondering if you can confirm her as your guest, next August. Actually, we are convinced that, once the word is spread and her holiday schedule made public, her fans will try to book every room in your hotel just to get a glimpse of her.

Looking forward to hearing from you,





É que não percebo mesmo por que razão não me dá o raio do endereço! É muitA menino, é o que é! 




sábado, 14 de março de 2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

Este blog faz três anos, sete meses e doze dias

Pronto, podem soltar o Fernando Pessoa que há dentro de cada um de vocês!


Com Cutxi, "derivado" da gravidade da sua situação, não basta uma simples mesa de cabeceira!

Com Cutxi, Pedro, o PT, vê-se obrigado a puxar pela imaginação, a derrubar barreiras e a ir mais longe, com Cutxi, Pedro, o PT, vê-se obrigado a usar objectos de mobiliário bastante mais complexos, (e agora entra a música assustadora seguida de um trovão daqueles que parecem um chicote a zurzir, tzzzzzz, crás) com pequena Cutxi, Pedro, o PT, vê-se obrigado a recorrer à, tchan-tchan-tchan-tchan! (voz cava, funda e pausada)  es-tan-te da sa-la!



quinta-feira, 12 de março de 2015

Isto de ter uma cadela letrada é muito complicado...


Tenho mesmo pouca sorte...

Quer dizer... a mim, dão-me o editorial de têxteis-lar e enfiam-me num balandrau, com o claro objectivo de me desfavorecer perante os meus admiradores e fãs; já à minha arqui-rival, pequena Cutxi, mesmo depois de ter sido oficialmente declarada gorda por uma junta médica, dão-lhe o editorial de Chinawear, toda impecável, qual imperatriz Cixi, a exibir as suas incríveis formas?! Eh pah... não me conformo com a injustiça! É que não me conformo mesmo! A sério, acho que vou reclamar para a Entidade Reguladora dos Editoriais de Blogo-Moda!




quarta-feira, 11 de março de 2015

Já estive mais longe de ser anarquista

A parede exterior deste edifício estava completamente degradada, degradada de tal forma que já mal se percebia qual era a cor original. Ainda assim, e porque já se sabe como são as coisas, guardámos, tipo achado arqueológico, uma amostra de parte do reboco tanto da parede como do rodapé. Percebia-se claramente através daqueles bocadinhos que, em tempos, a barra tinha sido cinzenta e a parede branca. De seguida, pedimos licença à câmara para avançar com a recuperação exterior do edifício –para estes casos basta um pedido de ocupação de via pública -  e especificámos expressamente nesse pedido que a cor a aplicar era branco para a parede e cinzento para a barra. O nosso pedido foi deferido e nós avançámos com a obra.

Uma vez terminados os trabalhos, ficámos mesmo contentes com o resultado. O edifício ficou mesmo bonito, sóbrio, impecável, tão impecável que dá gosto olhar para ele. Hoje recebemos uma comunicação da Câmara a dizer que temos de o pintar de ocre… que, essa sim, era a cor original.


E aí a pessoa diz uns nomes feios e tem vontade de calçar umas caneleiras e aplicar uns pontapés bem aplicados numas virilhas que eu cá sei. Eh pah…?! V-ã-o -g-o-z-a-r c-o-m- a –v-o-s-s-a-m-ã-e! O dinheiro cai-vos das árvores, ou quê?! Eh pah... nem que tenha de ir com uma marreta partir a parede toda para a repor no estado em que estava antes de ser arranjada! D-e -o-c-r-e -é- q-u-e -n-ã-o -a- p-i-n-t-o! 





(bocados do reboco anteriores à obra)