sexta-feira, 2 de maio de 2014

Outros tempos - les uns et les autres

Tempos houve em que a televisão era uma máquina de feitiçaria, tempos em que a minha bisavó compunha a toilette para se sentar a receber aquelas pessoas que apareciam na caixa para conversar; nesses tempos, aqueles que serviam os privilegiados, os detentores de um artefacto de tal gabarito, encontravam as mais bizarras formas de assistir ao sumptuoso espectáculo sem que, com a sua presença, perturbassem o ambiente quase religioso.

A minha avó, pessoa liberal, tinha por sorte (ou intenção?) colocado o televisor num recanto da sala de jantar onde, depois da refeição, se tomava o café. Esse recanto era separado da zona da mesa por uma meia parede e, quando se terminava a refeição e passávamos aos cadeirões (cadeirões só para os senhores... para as senhoras tínhamos, obviamente, senhorinhas), dava-se início à cerimónia. A bandeja do café era trazida, as chávenas eram servidas, a minha avó colocava num copo de balão a quantidade de brandy cuja medida só ela conhecia, acendia a lamparina do burrinho com toda a concentração e mestria, o copo era rodado sobre a lamparina o número de vezes que também só ela conhecia e, quando atingia a temperatura perfeita, era entregue ao meu avô que aguardava o cabalístico momento de se recostar no cadeirão a beber o seu brandy acompanhado do café. Nesse momento corriam-se as portinholas de madeira que fechavam o televisor no seu invólucro e o aparelho era finalmente ligado. No entanto, não era ainda possível dedicar toda a atenção à programação, o ambiente era ainda perturbado por um vai-vem sussurrante de pessoas que se atarefavam a levantar a mesa e a devolver à casa de jantar a dignidade de quem aguarda a próxima refeição. Se bem que aquela meia parede não nos permitisse destrinçar quem procedia a tais tarefas, o burburinho do outro lado  indicava que a cerimónia ainda não tinha efectivamente começado. Só quando as luzes do candeeiro que pendia sobre a mesa se apagavam, quando o silêncio se instalava e quando se ouvia a maçaneta da porta lá do fundo, a que ficava no canto escuro da sala de jantar imediatamente atrás da meia parede, a rodar, quando se ouvia o som quase imperceptível de passos que só os mais atentos dariam conta, quando se sentia as duas cadeiras a ser pousadas em fila indiana- para evitarem serem vistas pelo lado de cá- junto a essa meia parede, e dois pares de olhinhos disfarçados na penumbra a fixar o ecrã... nessa altura, one side & the other assistiam finalmente e em uníssono ao espectáculo.

Já em casa da tia Póli, pessoa bem menos liberal, apesar de também se assistir ao espectáculo, a coisa processava-se de acordo com diferentes cânones. A tia Póli, apesar de viver só, ocupava várias pessoas para lhe aturarem as madurezas. Uma delas, a Maria, tinha por missão acordá-la de manhã e tratar-lhe das refeições. E assim era, todas as manhãs a Maria entrava no quarto da tia Póli e dava-lhe umas palmadinhas suaves ao mesmo tempo que perguntava: "então, ainda está vivinha?". Depois de se assegurar que sim, que a tia Póli continuava vivinha, a Maria tratava-lhe das refeições com todo o desvelo. Excepto, claro está, nos dias em que a tia Póli tinha de sair. Nesses dias a tia Póli levava consigo o molho de chaves com que anteriormente tinha fechado todos os seus pertences. Não se pense, no entanto, que a Maria, com o seu fraco entender, não resolvia situações complicadas. Nesses dias, e na impossibilidade de aceder à despensa, a Maria corria os vizinhos para pedir o que fosse preciso, dizendo a quem a quisesse ouvir que a puta da velha tinha deixado tudo fechado à chave. Ora entendida que está a forma com que a tia Póli se relacionava com os seus serviçais, passemos à engenhosa forma como, naquela casa, se assistia ao espectáculo da televisão.
A tia Póli não tinha um recanto para ver o televisor, a tia Póli sentava-se à mesa para jantar aquilo que a Maria lhe tivesse preparado e, quando terminava, ali continuava, com a televisão colocada estrategicamente em cima do grande aparador de madeira escura que se encontrava imediatamente à sua frente, pronta para assistir ao espectáculo mágico. O vai-vem após a refeição era mais curto, já que a tia Póli era sozinha e, uma vez terminado, o sistema adoptado não era o one side & the other que tão bons resultados obtinha em casa da minha avó, mas sim o revolucionário up & down. Assim sendo, uma vez arrumadas as coisas, a Maria podia finalmente instalar-se para, também ela, ver o televisor, fazia-o sentada debaixo da mesa, onde tinha o seu momento de lazer, interrompido de vez em quando pela tia Póli, que batia no tampo da mesa, como quem bate a uma porta, ordenando à Maria que lhe trouxesse um copo de água...




(tempos hoje incompreensíveis) 



40 comentários:

  1. E por momentos achei que estava a ler Agustina Bessa-Luís. :)

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  2. Ver TV era um ritual . Este está tão vividamente descrito, que posso quase sentir-me debaixo da mesa... ;);)

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  3. Escreves tão bem!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    1. Oh pah... não me deixem embaraçada... :))))))

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  4. E porque é que a Maria tinha que ver televisão debaixo da mesa?

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    1. Para não ficar à vista da tia Póli...

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    2. Tempos incompreensíveis, mesmo.

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  5. Maravilhoso.
    (a escrita e as histórias, que as minhas tias não dão para isso)

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  6. genial Palmier!
    e irreal!
    mas no entanto, conheci ambas e bastante bem. sem ter 100 anos...
    em casa de uma tia minha, a pobre da senhora que espreitava o televisor do corredor (jamais foi autorizada a sentar-se na sala com a patroa) era brindada, de cada vez que soltava um riso menos abafado, com um violento "shiu" vindo do interior de um cadeirão onde dormitava, afundada entre almofadas, a senhora tia

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    1. Ahhahahahahahhahahahahahahahahahahahahhaahhahahahahahahahahahhahahahaha

      Era assim e pronto. Ninguém se questionava... nem uns, nem os outros... :DDDDDDDDD

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  7. Palmier, eu quero ler um livro teu.

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    1. Ahahhahahhahahhahahahahahahahaahhahahahahhahahahahaha

      Havia de ser giro... :DDDDD

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    2. Eu concordo! Belíssima escrita!! Margarida, uma anónima quase a ceder à tentação de fazer o palmier que está ali a piscar-me o olho, na máquina de vending entenda-se, dar o tombo da sua vida!

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    3. Isso, isso! Palmieiriza-me imediatamente essa máquina de vending! :DDDDDDDDDD

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  8. Gostei muito. Acho deliciosa a maneira de acordar a Tia Póli "então ainda está vivinha?"Lembrou-me Proust e uma tia que nunca dormia, apenas repousava.

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    1. :DDDDDDDD

      (repousar é um clássico! :DDDDDDD)

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    2. acho que enviei duas vezes o mesmo comentário. queira desculpar Grã Palmier esta prova de senilidade

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    3. Tssss... Tssss...
      (e este também veio repetido... :DDDDDD)

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  9. Gosto. A menina de vez em quando até que se ajeita com as palavras hã?..
    (Está top!)

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    1. :DDDDDDD

      (muito, muito raramente...)

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    2. Nós, os da classe A superior, não somos modestos...
      (Tens muito jeito para contar estas velhas estórias, sim... são sentidas e vividas, muito bonitas Palmier)

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    3. Tssss... esqueci-me, por breves momentos, que era da classe A+++++... :DDDDSSS

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    4. Só não me diz é de que nome é o petit nom Póli. É que eu também tive uma Tia Póli, de Policarpa.

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  10. Que escrita maravilhosa, Palmier! Muito obrigada por esta partilha.
    Aplausos para si :)

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  11. Ah, bom... estava a ver que, depois de expressar a minha devoção, tinha de ir a outros poisos para "pôr a leitura em dia" :D
    É por escritos desta classe que o Palmierismo é doutrina a seguir. Esplêndido!

    (sim, sim, mais um afagozinho nesse ego :))

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    1. É o novo conceito de blog... o all in one! :DDDDDD

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  12. Belíssimo post.

    (ajuda sempre quando as primeiras três palavras nos prendem de imediato)

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    1. Maria... traga-me os sais, que eu estou prestes a desmaiar!

      (obrigada Tio Pipoco :)

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  13. Muito bom, mesmo. É como se estivesse lá a ver as cenas decorrer à minha frente.

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  14. Deleitei-me a ler este post muito bem escrito, os meus parabéns Palmier!

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