quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

E tu, Palmier, por que lês blogs?

Ler um blog é mais ou menos como olhar de fora para dentro através de uma janela com as cortinas abertas, uma janela com as luzes todas acesas numa noite escura, uma janela através da qual podemos ver o inesperado: uma aventura nos mares revoltos, pessoas em guerra consigo próprias, com o mundo ou até mesmo com o universo, a grandiosidade do “eu” embrulhada em floreados e rococós, o espelho das nossas opiniões ou o inverso das mesmas, a estupidez só porque sim, porque todos somos filhos de Deus, um catálogo de compras que se folheia sem vontade, o divertimento com as palermices alheias, a surpresa por alguém conseguir pôr em palavras tudo aquilo que tínhamos desarrumado nas nossas cabeças, quase como que olhando uma pintura disséssemos, “ora, isto também eu fazia”, mas, claro, não fizemos, a contenda daqueles que enredados nas cordas com que, qual Houdinis, se auto-amarraram, se esqueceram da fórmula para se libertarem, e a pessoa fica ali parada a olhar, curiosa de saber como é que eles se vão safar, numa espécie de zapping sem fim. Num blog podemos sentir a alegria e a tristeza de quem o escreve, o júbilo e o desânimo, a garra e o esmorecer da vontade, às vezes vemos coisas de que não gostamos, daquelas que nos fazem baixar os olhos, estugar o passo, e continuar a andar até ao fim da rua sem olhar para trás, de outras vezes demoramo-nos numa determinada janela, vamos buscar um banquinho e ali ficamos, no passeio, cotovelos no parapeito e nariz no vidro, a assistir à trama, um blog é uma janela a que podemos bater para deixar uma palavra, apesar de, por vezes, nos fecharem as cortinas com maus modos. Alguns blogs são casas com pessoas lá dentro, outros há que parecendo casas de verdade não passam afinal de cenários de novela, e um blog, independentemente da sua natureza, exerce em mim o fascínio de me ser permitido olhar directamente e sem culpa através de uma janela indiscreta.


53 comentários:

  1. "Ora, isto até eu fazia"
    ahahah
    Não fazia não, porque embora o pense e sinta, não sei apaziguar as palavras, não tenho mão nelas.
    Gosto desta janela que olho muitas vezes, deixando pegada ou não.
    Bom dia

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  2. Doce Pamier,
    Perspetiva de impenitente voyeur?
    (Um blogger vai buscar um banquinho e põe-se à janela, conversando com quem passa. Nunca pretendo ver para lá das cortinas e recuso a entrada nos seus lares. Gosto de os cumprimentar, quando passo. Alguns contam-me novidades, outros segredam-me poesia e outros fazem-me rir. Fascina-me a interação entre os dos banquinhos e os transeuntes. Simpatizo com um punhado de ambos. Como se tivessem pessoas dentro.)
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Voyeur daquilo que cada um quer mostrar e que, não querendo, acaba por mostrar. Confuso, bem sei... mas só sou voyeur daquilo que está à vista na janela da sala :), o que está "la para dentro", isso já não sei de nada :) Mas também gosto muito dessa ideia de ficar à conversa à janela :))))

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  3. Gosto imenso de olhar para a sua janela.

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  4. "de outras vezes demoramo-nos numa determinada janela, vamos buscar um banquinho e ali ficamos, no passeio, cotovelos no parapeito e nariz no vidro, a assistir"

    É isto que faço neste blogue :)

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  5. A que poética Palmier... desconhecia essa faceta mas não me surpreende que a tenha. Espero que gostes de espreitar na minha janela tanto quanto eu da tua...
    p.s.- se não gostares não faz mal ;)

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  6. Esta é uma janela onde paro muitas vezes e me rio a bandeiras despregadas. Gosto :))

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  7. Gosto da tua escrita, muito bem.

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    1. Se tu, minha Maman, não gostasses... bem... estávamos mal! :DDDDDDDDDDDD

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  8. Quem diz a verdade não merece castigo! Espreitar a janela da Palmier é sinónimo de muitos risos e gargalhadas!

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  9. Eu gostava muito de comentar o que escreveu mas só o farei se tiver a sua garantia de que não me responde "menor que três". Conto consigo?

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  10. Tão bom, este post. É mesmo isto. E não acho que a janela seja indiscreta. Ou se é, é uma indiscrição consentida e intencional. Porque nos pomos à janela, não é? Às vezes acendemos as luzes e escarrapachamo-nos no peitoril, outras jogamos com a contraluz e afastamos as cortinas na justa medida, para que nos vejam da rua. Nem sempre conseguimos o equilíbrio que pretendíamos entre o que queremos esconder e o que queremos mostrar. E depois às vezes zangamo-nos. :D

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  11. O problema, Palmier, é que o que vemos da janela nunca é aquilo que parece. Foi filtrado, cuidadosamente preparado para nos ludibriar, cuidadosamente descuidado para nos iludir. Para além disso, um blog não tem o poder de nos dar a conhecer, é ver como o autor escreve uma coisa e, porque não acrescentou dois pontos e mutos parêntesis, o leitor percebe algo completamente diferente. Um blog não merece que nos aborreçamos uns com os outros ou que achemos que quem está do outro lado podia perfeitamente ser nosso amigo. Um blog é só um blog.

    (se calhar fui demasiado fofinho no comentário...)

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    1. Ah, Tio Pipoco, mas aí a doutrina divide-se... :)
      Sendo certo que um blog não merece que nos aborreçamos uns com os outros, também é certo que eu quase estava capaz de apostar o meu dedo que advinha em como poderia ser amiga de algumas pessoas dos blogs. É claro que não tenho como comprovar a minha teoria, uma vez que não conheço qualquer blogger, mas há uma coisa que o Pipoco não sabe, mas eu sei... é que, por mais mais personagens que se criem, por mais cortinas que o autor ponha à sua volta, por mais filtros que se ponham nas palavras, as malandras estão sempre ali à coca, à espera do momento certo para denunciar a natureza da pessoa por detrás do pobre e incauto blogger, mesmo que seja nas entrelinhas. Principalmente nas entrelinhas. Nunca se fie nas palavras, Tio Pipoco, elas são umas traiçoeiras. Palavra de Palmier.

      (Bem sei que está minha revelação pode criar ondas de choque inauditas... :)

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  12. Doce Palmier, sei razoavelmente disso das palavras que se escapam e nos denunciam. Sei ainda mais, sei que o lado que escolhemos e aquilo que está para além do que escrevemos nos define ainda mais do que alguma palavra tresmalhada. Ainda assim, acreditar que se tem um dedo que adivinha que poderia ser amiga de pessoas dos blogs define uma notável crença no desconhecido.

    (o mundo precisa de pessoas assim, umas queridas...)

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    1. É que mais do que acreditar em “lados” nisto dos blogs (mas afinal isto não eram só blogs, nada mais que blogs?) prefiro acreditar nas pessoas em geral. E as pessoas dos blogs são apenas isso, pessoas. Se nos podemos enganar com as pessoas dos blogs? Podemos… da mesma forma que nos podemos enganar com as outras, aquelas com que nos cruzamos no nosso dia-a-dia... acho que o mundo não perde nada se tivermos um bocadinho mais de fé uns nos outros. Se correr mal? Pois levantamo-nos, sacudimos a poeira da saia e continuamos em frente.

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  13. Por exemplo, quando escrevi "escolher o lado" sabia que a Palmier associaria a blogs, era certo que o faria. No entanto referia-me a algo menos centrado nos blogs, por exemplo alguém que pensamos que podia bem ser nosso amigo mostrar bilhetes para o Tony Carreira.

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    1. Mas, Tio Pipoco... desde que o dito amigo não me obrigasse a ir com ele ver o Tony Carreira, por mim poderia ir vê-lo à vontade. É que ter amizade por alguém é isso mesmo, é aceitar as pessoas com os seus defeitos e virtudes. Se é que gostar de Tony Carreira pode ser considerado um "defeito"...

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  14. Escolhi Tony Carreira para desanuviar, acabou por retirar foco. Imagine o tal amigo a dizer que atropelou um cão e nao parou ou a gabar-se de ter roubado porque ninguém estava a ver.

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    1. Estou em crer que mesmo antes de tal pessoa ter tido oportunidade de me dizer isso, já o meu dedo que adivinha há muito me teria informado que essa pessoa não seria, em tempo algum, minha amiga...

      Repare o Pipoco que eu não digo que todas as pessoas são boas, o que digo é que nós conseguimos descortinar, pela forma como escrevem, a natureza das pessoas - seja ela boa ou má.

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  15. E o que acha a Palmier que eu vejo desta sua janela que me abre?

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  16. Gostava mesmo de ter a sua visão. Mas também me parecia que não baixaria essa barreira.

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    1. Não é questão de "baixar uma barreira", é que acho que, tentando olhar cá para dentro com os olhos de quem está de fora, não me parece que haja assim nada de mal que possa ser visto... mas bem sei que poderá ter uma leitura diferente. Somos os menos indicados para nos avaliarmos a nós próprios... :)


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  17. Respostas
    1. Desde o princípio que o estou a fazer...
      (daí que o estivesse a incitar a desenvolver o tema, a ver se se livra dessa pedra no sapato :)

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  18. Pipocante Irrelevante Delirante18 de dezembro de 2015 às 14:02

    "Porque"?

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    1. Hum... acho que não...
      - por que (razão) lês...

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    2. Pipocante Irrelevante Delirante18 de dezembro de 2015 às 15:36

      Porquê?

      ------------------ BLOG CULTURAL, ESTE ------------------------

      2 – Escreve-se por que:

      a) Quando por é preposição e que é pronome relativo (isto é, por que = pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais). Exemplos: «Este é o dinheiro por que (pelo qual) vendo a casa.» «A ideia por que (pela qual) luto é a melhor.» «Os 100 contos, por que (pelos quais) vendi o carro, dá-los-ei aos pobres.» «Estão à vista as causas por que (pelas quais) ainda te conservas na minha casa.»

      b) Quando por é preposição e o que é pronome interrogativo adjunto: (chama-se adjunto por vir junto dum substantivo, ligado ele pelo sentido). Exemplos: «Por que (= por qual) razão/motivo/causa/pretexto, etc., não vieste ontem?» «Por que (= por quais) livros aprendeste?»

      c) Quando por é preposição e que é pronome interrogativo:«Por que esperas? (= por que coisa esperas?)». «Que coisa esperas?»

      3- Porquê

      Escreve-se porquê, quando é advérbio interrogativo ou é substantivo:

      a) Advérbio interrogativo:

      - Andas triste, porquê?

      - Porquê toda essa azáfama?

      b) Substantivo. É-o, quando significa causa, motivo, razão, como na frase seguinte:

      - Precisamos de investigar o porquê dos acontecimentos.

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    3. Opá... fiquei baralhada... então em que ficamos?
      - Porque lês blogs?
      ou
      - Por que (razão) lês blogs?

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    4. (Sou um zero com a gramática... aliás, deleguei o acompanhamento do estudo do português ao meu marido. Mil vezes matemática! :D)

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  19. Está janela é ampla e luminosa. Perfeita para nos debruçarmos nela!
    Para além disso, tem uma pessoa dentro e, ainda mais, dois cães!!!

    Beijinhos, Palmier. :)

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  20. Sempre gostei da tua janela luminosa, por onde vejo salas quentinhas e gente de verdade sem medo de se mostrar tal qual como é; sem artificios e com toda a loucura incluida. Gosto da gente que vejo da tua janela e gosto do que pressinto que a tua gente se gosta.
    ( e revejo-me em cada uma das tuas palavras no post acima)

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  21. Este texto está tão, mas tão bom!

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  22. Mas que grande texto! Isto queria eu escrever, mas não sei! Fico por cá :)

    Jiji

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